Há mais ou menos 100 dias, entrei na rotina de ouvir música enquanto trabalho.
Bem… parece muito natural, muita gente gosta e costuma fazer isso. Mas acredite, meu caso é muito diferente. Note: Apertar “play” no seu Windows Media Player e começar a ouvir aquelas músicas que você mesmo selecionou é MUITO diferente de ter, a 5 andares abaixo da sua sala de trabalho, um carro de som que mais parece um trio elétrico tocando toda a variedade de melodias que se possa imaginar.
Admito que no começo era até engraçado. Era divertido observar, por baixo das mesas, os colegas de trabalho batendo o pé no chão acompanhando as batidas de “Garçom” do Reginaldo Rossi. Já cheguei certa vez, a flagrar alguns deles cantarolando baixinho “No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via, você sofrendo a sorrir…”. Algumas mulheres suspiravam com um sorriso disfarçado ao ouvir a voz suave do Wando susurrando: “Você é luz, é raio, estrela e luar…”(talvez pensassem em jogar suas calcinhas pela janela, com a esperança de que ele estivesse lá no estacionamento, acenando e sorrindo com aqueles lábios carnudos).
Como você pôde notar, o DJ possui um repertório… é… bem… digamos que ele é um grande colecionador de sucessos do passado. E eu seria uma grande mentirosa se dissesse que não achava engraçada a situação. Isso me rendeu boas gargalhadas, com exceção, é claro, da música do hospital e da sala de cirurgia, que é muito triste e depois que prestei atenção em toda a letra, fiquei até meio deprimida…
É… Mas o tempo passou… e o carro de som permanece lá fora a tocar cada vez mais alto, rodeado por algumas dezenas de pessoas. Pude notar com o passar das semanas, que se trata de uma manifestação de anistiados das demissões que ocorreram na época do Governo Collor. Eu, assim como os demais pobres espectadores desse concerto, não fomos capazes de compreender que se tratava de uma manifestação desde o início. Talvez isso fosse possível, se por acaso algum dos manifestantes dissesse algo, como numa manifestação qualquer, onde aquelas pessoas sobem no carro de som e expõem suas propostas e reivindicações e dizem o porquê de estarem ali.
Nesses quase quatro meses, que mais parecem quatro anos, o repertório está cada vez maior… Agora já temos forró, pagode, heavy metal, discoteca dos anos 70 e até jingles da última campanha do Lula. E não, já não é mais divertido, é uma tortura… Já não lembro mais o que é trabalhar ouvindo apenas o barulho do trânsito lá fora…
Eu não tenho conhecimento sobre o assunto, não sei porque foram demitidos e muito menos porque foram anistiados, mas eles querem voltar a trabalhar e eu também gostaria muito que eles voltassem… Afinal, eles já foram anistiados e merecem uma segunda chance. Até o próprio Fernando Collor, que inventou toda essa palhaçada, está tendo sua segunda chance no Senado! Os anistiados querem seus empregos de volta e para isso, decidiram que enlouquecer as pessoas que tentam trabalhar em paz é uma boa estratégia…
Adoraria, de coração, que a situação deles fosse resolvida! Mas enquanto isso, vou propor ao pessoal dos Ministérios que saibam aproveitar a situação… Sabe aquelas programações de rádio onde o ouvinte pede a música que vai ouvir? É… Certamente vão rolar muitos pedidos bizarros… Mas viver numa sociedade democrática é assim. Há que se respeitar a pluralidade!
Hummm, começaram a tocar Gipsy Kings! Acho que vou lá em baixo bailar e convidar os anistiados de sei-lá-o-quê para uma rodada de tequila!
“Bamboleo, bambolea
Porque mi vida, yo la prefiero vivir asi
Bamboleo, bambolea
Porque mi vida, yo la prefiero vivir asi”
Hasta luego!
Lorena Lins